Fui dormir as 9h da noite, estava cansado como sempre por causa do
fuso, mas antes de dormir perguntei para o eslovaco que estava do meu
lado sobre onde seria um bom lugar para visitar no dia seguinte, ele
rapidamente pegou um papel e começou a escrever e me mostrou três
viagens diferentes.
Jian, o eslovaco era uma pessoa muito diferente, mais quieta e reservada, ele já estava lá a quase um ano, era alto, loiro e tinha olhos azuis; era
um perfeito turista. Quando eu o vi pela primeira vez ele foi
extremamente receptivo e falava muito, com o tempo dava pra ver que
ele já estava cansado da vida na Índia. Um dia descobri que ele
já tinha trabalhado numa cidade perto de Granada na Espanha (a qual eu
fui fazer um intercambio) e que ele também, entre as suas muitas
viagens, tinha ido ao Nepal, e segundo ele essa foi a sua melhor
viagem, depois de escutar isso fiquei com vontade de ir para lá. Era
estranho que ele parecia conhecer muito sobre a cultura dos indianos,
quando ele falava tudo fazia sentido! Queria que ele ficasse mais
tempo aqui, mas descobri que essa era sua última semana.
No dia seguinte acordei as 5h da manhã e comecei a procurar
informações sobre minha viagem, peguei o Lonely Planet, ou como os
mochileiros falam, “O Livro”. Esse era o guia de todos os viajantes na
Índia, e eu tinha conseguido sua versão digital na minha conversa na
noite anterior. Depois de umas duas horas eu já havia planejado minha
viagem e os Nigerianos acordaram, desci para tomar café da manhã. As
duas mulheres da casa já estavam acordadas e eu comi uma panqueca fria
(comida típica da Índia) e um pão que não era dos melhores.
Durante a refeição eu falamos sobre a minha viagem, a filha abriu um
sorriso, enquanto mãe ficou preocupadíssima e não queria me deixar
sair. Elas chegaram a conclusão que seria um problema porque eu
provavelmente seria enganado, ou seja: no táxi por exemplo eu pagaria
R$1,oo ao invés de pagar 50 centavos... Bom, não pareceu fazer muita
diferença para mim, mas mesmo assim elas disseram que seria bom eu
contratar um guia ou levar o anão nigeriano comigo. Resolvi escolher a
segunda opção.
Seu nome era Aluko, ele perdeu seu pai ainda jovem e sua mãe ficou
solteira com 4 filhos e uma filha, acredita com todas suas forças que
as pessoas o estranham porque ele é negro, mas não, é a soma das
coisas: negro num país onde todos têm a mesma cor e por ser muito
baixo. Em três meses irá acabar seu intercâmbio e ele não quer voltar
para a Nigéria, e gostou da ideia de ir ao Brasil, no começo apoiei a
ideia, mas com o tempo vi que ele queria ir sozinho sem falar a língua
e possivelmente sem uma passagem de volta, suicídio, não? Ele me pede
ajuda para isso quase que diariamente.
Ele tinha separado uma quantia para vir a Índia, juntamente com seu
salário ele teria como sobreviver: o plano parecia bom, mas começou a
dar errado ainda na Nigéria. Ele não tinha colocado em suas contas o
preço do visto, que ficou com uma situação ainda pior pelo fato de ele
ter pegado o de negócios (que e bem mais caro). Chegando aqui não
havia emprego para ele como o prometido e agora ele está sem dinheiro
e sem trabalho, passa o dia todo trancado dentro de casa comendo pão e
as vezes um macarrão.
Voltando à viagem, eu comecei a me organizar, fiz a minha mala, o papa
Cansei de escrever sobre esse dia, quem sabe um dia eu termino...
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